(Buena, esse post foi escrito em 22 de abril, fiz a besteira de escrever no Word, pra poder editar melhor, então ficou por la mofando, eu ia deletar, já que estou longe do momento em que o escrevi, estava meio de luto por mais uma esperança de amor perdida, tinha acabado de mandar um e-mail de “chega disso” definitivo. mas percebi que esse post provocou uma discussão interna com conseqüências meio complicadas, resolvi então publicar e depois explicar, por isso ficou tão desconexo)
Eu não sou muito pratico, me preocupo mais com a poesia do que com a vida em si, um instante poético às vezes me vale mais que uma relação. Terminar com alguém e escrever uma bela carta de despedida, olhar um por de sol e sentir saudade, parece mais pleno que conviver com alguém e seus gases. Ou os meus, que são imbatíveis.Lembro de uma discussão, quando era realmente jovem (ainda sou jovem, mas não é mais de verdade...) uma discussão sobre transformar a vida numa obra de arte, a arte deveria ser vivida, a vida ser arte. Abandonei essa discussão faz tempo, apesar da arte ter muito mais peso na minha vida do que imaginava até dois minutos atrás. Vivo como quem escreve um livro. Um livro tedioso dramático... Engraçado, eu pressentia isso nas minhas crises de desespero, nos meus cortes, algo forjado, levemente falso, e ninguém nunca me levou a serio, eu sou uma comedia. Do tipo dom Quixote, uma comedia que não era pra ser comedia, e como no clown, sua graça está na proporção ao seu constrangimento. Da mesma forma que dom Quixote, também li muitos livros. Acho que no momento que comecei a pressentir o universo infantil saindo furtivamente, a francesa mesmo, da minha vida, isso lá pelos 13 anos, me agarrei em algo aparentemente adulto, o universo da literatura, e a arte, que ainda continha a magia das possibilidades, e o estado poético das coisas que o mundo adulto que eu vislumbrava me pedia que abandonasse, e então, sem perceber, formulei um tipo de mundo que eu pudesse viver a parte, com uma interpretação poética da realidade. Ou um interprete do poético dentro da realidade. (Essas duas ultimas frases dariam um post a parte, pois trazem em si uma contradição e a sutileza que separa o doente mental do artista, mas fica pra um outro momento..).
Desculpem, me propus a escrever de traz pra frente, e deveria estar falando da minha infância muito alem desse ponto, é que na busca da resposta de “como vim parar aqui” percebo que o fato do universo poético e o abandono dele num determinado ponto da historia contribuiu pra esse estado de coisas, e era necessário explicar o principio pra compreender a perda dele, ou melhor, explicar o que talvez tenha sido perdido. Foi quando tentei me tornar real, lá pelos 37 anos, quando cansei de ser artista pobre, maluco, enjoei desse personagem, que tantas pessoas são prisioneiras, e eu não queria continuar vivendo essas experiência poética de “feijão e o sonho” nos anos que se seguissem. Passei a ter aversão a todo tipo de alternativos, e à artistas batalhadores e incompreendidos, eu simplesmente queria aquilo que anos antes me apavorava, enfim, queria ser adulto, ter casa carro, e televisão, filhos não... Eu simplesmente me cansei de ser jovem. Me cansei de ser alternativo, isso foi em 2000, e acho que durante esses 10 anos vivi sob essa perspectiva, do real, e não poético, na medida do possível. A estrada veio desembocar aqui, nesse agora, nesse hoje estranho, surrealista. Engraçado como tudo é uma grande teia, e é difícil falar de algo sem tocar em outro algo, um ponto nasce de outro ponto que surgiu em outro ponto, organizar tudo isso de forma entendível é bastante complicado, principalmente quando não se quer ser parcial. Comecei escrevendo que não sou pratico, mas poético, que a arte me interessa mais que a vida, e reafirmo isso. O surrealismo nasceu na minha vida no momento em que o abandonei. A partir do ponto que resolvi me tornar real, o mundo se desestruturou, e passo a passo foi se tornado cada vez mais irreal, minha luta foi vã porque lutei comigo. Descobri isso nesse minuto. Ainda não tinha elaborado dessa forma, acho que descobri porque vim parar aqui.
continua
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