domingo, 31 de agosto de 2014

Desapareci daqui, por motivos, simples, a internet oferece tantos canais de comunicação que acabamos nos perdendo por eles, se eu fosse uma empresa talvez fosse mais simples e teria uma estratégia de marketing, e objetivos claros de lucro e contato com o cliente, parte de mim até tenta se tornar isso, mas continuo artista, com objetivos bastante distintos e até conflitantes com a "empresa" Guibonecos, rs. E continuo "pessoa", que também tem la seus objetivos conflitantes com a empresa e o artista. Nessa salada que reside em mim, empresa, artista e pessoa,  acabo criando fan page, perfil,blog, site, blog paralelo como esse, e o que mais aparecer, para atender diferentes necessidades, mas só agora escrevendo me dou conta como acabo misturando tudo, e já não sei onde começa e termina uma coisa e outra. As pessoas que me seguem acabaram se tornando cada vez mais "clientes potenciais" e menos " publico" , "leitores" , e "comparsas do leve desespero humano de ser". Ou seja, a empresa acabou tomando um pouco o espaço do artista e do "pessoa", e talvez esse espaço aqui era o mais pessoal de todos, onde eu estava a escrever minha biografia inversa, onde na verdade se encontra a origem de tudo que o artista cria e o empresário vende. Não estranhem, isto esta sendo pensado e elaborado enquanto vou escrevendo, ou seja, uma conversa interna em voz alta, cheia de contra-adições, e as conclusões estou acabando de descobrir. Não tenho nada contra o empresário, até gosto bastante dele, é objetivo, claro, não se perde muito em entrelinhas e sabe exatamente a que vem. E é quem se preocupa e cuida de assuntos como viabilidade, estrutura e manutenção, e garante meu sustento, o artista não entende nada disso, e cria o que se lhe apresenta o desejo, se deixarem, e se o tal desejo é um elefante branco de 2 metros, se não for pela interferência do empresário, que vai pensar em custos, espaço, quem vai querer, se é vendável, e etc, ele vai realizar o elefante, e o "pessoa" é que terá que conviver com aquele objeto imenso sem saber o que fazer com ele.a ordem seria essa: me sinto apertado, incomodado com coisas imensas que não sei onde colocar, coisas que podem ser lindas mas não sei como encaixar na minha realidade. o artista pega todos esses sentimentos não expressos e resolve transforma-los em um objeto real, dimensionando os tais sentimentos e percepções, o empresario pensa em que tipo de lucro ou prejuízo pode ter com tal "mercadoria" .rs
voltando para o assunto do topo, porque desapareci daqui, depois dessa reflexão, me dei conta de como a tendencia foi ter um perfil publico que ia de encontro aos interesses do empresario, ou seja, não seja pessoal, não mostre suas arestas, e se possível, se o elefante for inevitável, que pelo menos combine com a cor do sofá.  aqui era para ser pessoal, mostrar minhas arestas e o elefante destruir o sofá, e cagar no meio da sala. qual o sentido disso? reflexão. acho que é o objetivo primeiro tanto do artista quanto do "pessoa", modificar, repensar, recriar, propor, questionar, re-evolucionar, redizer, contra-adicionar. tudo isso me da a sensação de viver, adoro o "eu empresario" mas ele só pensa em sobreviver, e isso é pouco, ou muito, dependendo da circunstancia, claro.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

natal 2010

esse ano, não sei por que cargas d'agua, resolvi que queria um natal lindo, de filme americano, luzes, presépio, arvore de natal, ceia, e claro uma familia reunida, o que é mais difícil de encontrar.
Encerrei meu trabalho no principio de dezembro e comecei a modelar um presépio, foi tudo muito estranho. acho que fiquei doente varias vezes esse ano, minha irmã super poderosa ficou muitíssimo doente,e perdi uma pessoa muito importante, que nunca pensei que fosse embora,então comecei a dimensionar no meu cérebro a finitude. tudo bem, sempre vivi achando que ia morrer logo, mas percebi esse ano que meu "saber" era apenas metafórico, porque no final das contas, a morte sempre foi uma metáfora pra mim. mas esse ano ela se materializou, e na real ela é dolorosamente indescritível e desconfortavel, um buraco estranho, sem solução. uma ida sem volta. acho que como artista , e por ser bastante infantil, tenho uma visão mágica do mundo, onde tudo tem jeito, onde podemos brincar de ir e vir, fingir que está doente, triste, e nada ter conseqüências irremediáveis, sempre me vi como ator, representando coisas, mas no fim tiramos a maquilagem e tudo volta ao normal. o normal... eis o ponto. quando era criança sempre criava universos no quintal, brincava de ser rei ou mendigo, alma do outro mundo , guerreiro e perdedor, e no fim da brincadeira, tinha lá a casa e minha familia, no mesmo lugar, o feijão na mesa o arroz, tomava um banho, e tudo voltava a um calmo e aconchegante normal. meu pai era irritado, brigava muito, minha mãe distante, mas eles estavam lá. e apesar do mal estar , eu me sentia protegido. era normal. depois que cresci, brinquei disso por muito tempo, ir pro quintal-mundo, e me fingir de rei, mendigo, louco, apaixonado, artista, mal-amado, e depois voltar pra casa, meio rasgado e triturado, voltava então pro mundo normal, meu pai irritado, minha mãe distante, o cheiro do feijão, e uma cama confortavel. mas nos últimos tempos, tenho percebido que esse normal está se desfazendo, que vai chegar um momento não terei pra onde voltar, o que torna o meu ir cada vez mais tímido... me encontro cada vez mais com os caminhos sem volta, decisões que não podem voltar a traz, e que apesar de todos os livros espíritas e todos os consolos religiosos, as pessoas morrem, e nenhuma psicografia pode trazer o mundo normal de volta. bom, tudo isso dito pra dizer que me vi envolvido em organizar o natal e querer reunir as pessoas como se fosse a ultima festa, uma coisa inexplicável. porque estou dizendo tudo isso? nem sei, só estou falando como foi meu natal. teve um monte de detalhes, muito desapego, respirações prolongadas pra não perder a paciência, receitas erradas, e certas, mas no final foi bom, trabalho realizado. o simbolo mais forte do natal, é o nascimento do novo nas condições mais adversas. a flôr de lótus.
...eis a lição que a vida me propõe: construir novos "normais", novos aconchegos, porque eu querendo ou não tudo muda o tempo todo, e esse mundo aqui se baseia na transformação, independente da minha preguiça....
faz tempo que não passo por aqui, trabalhei muito, e perdi um pouco o contato com as palavras, meu trabalho me faz mergulhar num universo de imagens rápidas, de silêncios, e poucas perguntas e nenhuma resposta, trabalho em silencio, e quando falam comigo me tiram de uma linha de sensação, e falar comigo nesses momentos pode ser tomado como uma invasão de privacidade, como entrarem no seu quarto sem bater no momento que está se trocando. mas é mais que isso. tenho percebido que o que fica das relações é muito pouco das palavras, e muito das impressões, o que se diz tem bem pouca importância, tenho me concentrado mais nas impressões, o que a presença das pessoas me causa de sensações, e bem pouco ao que dizem, isso torna as vezes o dialogo ralo, e me forço a dizer coisas, apenas por educação, mas o verdadeiro dialogo está ocorrendo em outro lugar, o que me dá a impressão de estar sozinho, no meu universo de impressões inesprimiveis. estou repetindo muito as palavras aqui nesse texto, mas não estou querendo corrigir, um pouco por preguiça, um pouco por birra contra a estética, já que regras gramaticais são convenções baseadas no final das contas em estetica.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Relendo esse ultimo texto, depois de um tempo que o escrevi percebo que a sutiliza das duas frases que sublinhei la em cima, as que mereciam um post a parte, talvez tragam a solução e a moral desse post. Ou seja, o artista deve ser um tradutor do poético dentro da realidade e trazer esse universo para o mundo real, e como um bom tradutor entender muito bem as duas linguagens, como uma espécie de médium, fazer a ponte entre um mundo e outro, sem perder o que tem de humano e prosaico, o comum que nos une. já o louco, simplesmente mergulha no universo imaginário e simbólico passando a viver por lá, e desaprendendo a linguagem do real se torna por aqui apenas um fantasma, ou melhor dizendo, um corpo sem alma, já que sua alma está em outro país, o do imaginário.

E sobre a velha discussão de viver a arte, eis ai minha resposta por agora, não é uma questão de escolha, entre arte e real, poético e pratico, não se trata de “isso ou aquilo”, é um “tudo ao mesmo tempo agora”. O real é a terra onde plantamos as idéias. Ta certo, o real às vezes parece árido demais pra que alguma coisa brote, acho que por isso os artistas têm plantado tantos cactos, e a arte contemporânea é tão mórbida. Engraçado que quando penso em fazer um trabalho de arte respeitável, uma exposição que me de algum status e reconhecimento, sempre me ocorrem idéias mórbidas. Tenho a impressão que se for leve alegre, lúdico, continuarei a ser visto apenas como um bom artesão. Certo, eu não deveria me importar com isso, e ficar feliz de vender meus trabalhos na “ferinha”, mas como bom leonino não tenho muito talento pra humildade, alias acho humildade uma coisa bastante arrogante. Chega disso. Perdi-me novamente,

Estava tentando me responder a ultima frase da minha ultima postagem - “Comecei escrevendo que não sou pratico, mas poético, que a arte me interessa mais que a vida, e reafirmo isso. O surrealismo nasceu na minha vida no momento em que o abandonei. A partir do ponto que resolvi me tornar real, o mundo se desestruturou, e passo a passo foi se tornado cada vez mais irreal, minha luta foi vã porque lutei comigo.”

Bom , a resposta acho que já me dei, não se trata disso ou daquilo, e sempre que negligenciamos algo, e o jogamos na sombra, ele volta sorrateiro e descontrolado, mórbido. Isso é uma lei básica. Na primeira parte da vida negligenciei o real e tentei viver apenas o poético, a realidade aparecia de maneiras absurdas no meu caminho, como caminhar 35 km por não ter dinheiro pra pagar ônibus, ou pintar em porta de guarda roupas por não ter dinheiro pra comprar tela, enfim coisas que pra muitos é óbvia, mas pra mim não fazia sentido, eu não conseguia mexer numa maquina de calcular direito, e depois eu conto melhor essa parte, aqui o que interessa é apenas entender que eu me tornei completamente irreal, só não poderia ser considerado louco acho que por minha família ser bastante displicente, e eu não incomodar os vizinhos. E no fundo nunca perdi o fio da lógica, por mais fundo que entrei no labirinto nunca larguei meu novelinho de lã. Bom na segunda parte, isso depois de 2000 mais ou menos, ou um pouco antes, voltei pra realidade comecei a trabalhar, primeiro em uma banca de jornal, onde aprendi a calcular e lidar com dinheiro alheio e coisas prosaicas como necessidades de clientes,então percebi que se trabalhasse com horário e dedicação da mesma forma com algo relacionado a arte ganharia o triplo de dinheiro que estava ganhando, ai começaram os bonecos, os clientes, os clientes os bonecos, e dinheiro para planejar algo no mundo real. Tudo bem, continuei a trabalhar com algo relacionado a arte, mas o foco era a realidade, o preço, o produto, o cliente, o tempo, e não mais minhas discussões metafísicas e parangolescas do universo transcendental, a arte mesmo ficou em segundo ou terceiro plano, e então ela passou a se manifestar no meu dia a dia através do mundo ao meu redor, mas isso é sutil demais pra ser descrito. Me sinto dentro de um texto do Samuel Becket. Já está me enjoando isso, então concluindo, não sou pratico nem poético, eu não sou isso ou aquilo, no final das contas liberdade não é escolher isso ou aquilo, liberdade é reconhecer que sou tudo ao mesmo tempo agora. Não tem escolhas, eu sou todos os caminhos. E não é pra percorrer um de cada vez... burro. Rs

Na próxima postagem prometo voltar a linha de tempo e contar como vim parar em Tatuí.

CVPA parte III

(Buena, esse post foi escrito em 22 de abril, fiz a besteira de escrever no Word, pra poder editar melhor, então ficou por la mofando, eu ia deletar, já que estou longe do momento em que o escrevi, estava meio de luto por mais uma esperança de amor perdida, tinha acabado de mandar um e-mail de “chega disso” definitivo. mas percebi que esse post provocou uma discussão interna com conseqüências meio complicadas, resolvi então publicar e depois explicar, por isso ficou tão desconexo)

Eu não sou muito pratico, me preocupo mais com a poesia do que com a vida em si, um instante poético às vezes me vale mais que uma relação. Terminar com alguém e escrever uma bela carta de despedida, olhar um por de sol e sentir saudade, parece mais pleno que conviver com alguém e seus gases. Ou os meus, que são imbatíveis.Lembro de uma discussão, quando era realmente jovem (ainda sou jovem, mas não é mais de verdade...) uma discussão sobre transformar a vida numa obra de arte, a arte deveria ser vivida, a vida ser arte. Abandonei essa discussão faz tempo, apesar da arte ter muito mais peso na minha vida do que imaginava até dois minutos atrás. Vivo como quem escreve um livro. Um livro tedioso dramático... Engraçado, eu pressentia isso nas minhas crises de desespero, nos meus cortes, algo forjado, levemente falso, e ninguém nunca me levou a serio, eu sou uma comedia. Do tipo dom Quixote, uma comedia que não era pra ser comedia, e como no clown, sua graça está na proporção ao seu constrangimento. Da mesma forma que dom Quixote, também li muitos livros. Acho que no momento que comecei a pressentir o universo infantil saindo furtivamente, a francesa mesmo, da minha vida, isso lá pelos 13 anos, me agarrei em algo aparentemente adulto, o universo da literatura, e a arte, que ainda continha a magia das possibilidades, e o estado poético das coisas que o mundo adulto que eu vislumbrava me pedia que abandonasse, e então, sem perceber, formulei um tipo de mundo que eu pudesse viver a parte, com uma interpretação poética da realidade. Ou um interprete do poético dentro da realidade. (Essas duas ultimas frases dariam um post a parte, pois trazem em si uma contradição e a sutileza que separa o doente mental do artista, mas fica pra um outro momento..).

Desculpem, me propus a escrever de traz pra frente, e deveria estar falando da minha infância muito alem desse ponto, é que na busca da resposta de “como vim parar aqui” percebo que o fato do universo poético e o abandono dele num determinado ponto da historia contribuiu pra esse estado de coisas, e era necessário explicar o principio pra compreender a perda dele, ou melhor, explicar o que talvez tenha sido perdido. Foi quando tentei me tornar real, lá pelos 37 anos, quando cansei de ser artista pobre, maluco, enjoei desse personagem, que tantas pessoas são prisioneiras, e eu não queria continuar vivendo essas experiência poética de “feijão e o sonho” nos anos que se seguissem. Passei a ter aversão a todo tipo de alternativos, e à artistas batalhadores e incompreendidos, eu simplesmente queria aquilo que anos antes me apavorava, enfim, queria ser adulto, ter casa carro, e televisão, filhos não... Eu simplesmente me cansei de ser jovem. Me cansei de ser alternativo, isso foi em 2000, e acho que durante esses 10 anos vivi sob essa perspectiva, do real, e não poético, na medida do possível. A estrada veio desembocar aqui, nesse agora, nesse hoje estranho, surrealista. Engraçado como tudo é uma grande teia, e é difícil falar de algo sem tocar em outro algo, um ponto nasce de outro ponto que surgiu em outro ponto, organizar tudo isso de forma entendível é bastante complicado, principalmente quando não se quer ser parcial. Comecei escrevendo que não sou pratico, mas poético, que a arte me interessa mais que a vida, e reafirmo isso. O surrealismo nasceu na minha vida no momento em que o abandonei. A partir do ponto que resolvi me tornar real, o mundo se desestruturou, e passo a passo foi se tornado cada vez mais irreal, minha luta foi vã porque lutei comigo. Descobri isso nesse minuto. Ainda não tinha elaborado dessa forma, acho que descobri porque vim parar aqui.

continua

domingo, 18 de abril de 2010

como vim parar aqui PARTE II

...bom continuando a historia começada ai embaixo, o ambiente da minha casa ficou carregado e já não conseguia trabalhar direito, e a noite não dava pra dormir por causa do barulho, passei a dormir na casa da minha mãe, que me olhava com aquela cara de "Deus te castigou, porque voce brigou comigo...." conclusão terminou o contrato não encontrei outra casa, e como trabalhei muito pouco no fim do ano devido as minhas virtualidades existencialistas, fiquei relativamente descapitalizado, excessivamente cansado, e relativamente deprimido, e nada melhor que mãe nessas situações, ou pior, dependendo o ponto de vista, ja que é a brecha larga que abrimos pra que elas entrem como um elefante na nossa vida.... mas prefiro chamar isso de carinho, é mais simpático. me vi num beco sem saída, sabia que se voltasse seria fisgado e a ligação tão difícil de ser quebrada a 9 anos a traz seria refeita num passe de mágica, ou melhor dizendo num passo de um portão para outro. nuvem negra, nuvem negra.... e tem o fato de meu pai estar com 86 anos e levemente senil, e minha mãe precisar de alguém para ajuda-la nessa missão impossível de conviver com este ser. parece cruel falando assim, mas quem conheceu meu pai entenderia quanto difícil era existir ao seu lado, mesmo quando relativamente são.
enfim, como odeio indecisões e acho que uma má decisão é sempre melhor que se manter flutuando no mundo das possibilidades, cedi, peguei tudo e fui pra casa da minha mãe.
conforme ia tirando os moveis ia dimensionando o que estava fazendo, dimensionando literalmente, no sentido espacial, já que morava só numa casa de dois quarto e uma sala imensa, e mesmo assim meu material de trabalho se estendia por mais de 50 por cento da casa, e passava para um quarto de 3X2 e uma lavanderia corredor. era enfiar a agua de uma piscina num tanquinho, vazava agua pra todo lado, e sou relativamente apegado a objetos aparentemente insignificantes, minha colher querida, minha caneca.... e depois meu jardim.... esse não dava pra carregar mesmo. vinte pés de abacaxi, um imenso pé de chuchu, minhas dez roseiras, meu pé de maracujá carregado, o pé de limão. quando era criança fiquei muito impressionado quando li "meu pé de laranja lima", e essa velha emoção voltou com o meu pé de limão azedo, sabia que estava cortando tudo aquilo, já que o novo morador com certeza ia se desfazer daquele meu jardim indígena, já que tudo era muito aleatório, numa estética paisagística bem particular beirando o naturalmente selvagem. e o céu imenso por cima dele também contava. a casa de minha mãe não tem quase espaços abertos pro céu, e eu tenho uma necessidade visceral de olhar para o céu, la é mais minha terra que aqui, aquele grande espaço azul e vazio, a dança das cores das nuvens, acompanhar as fases da lua, o mundo é tão ridículamente desorganizado e pequeno em comparação ao céu.
e a pergunta era e é essa: porque estou fazendo isso? alias essa pergunta me acompanha todos os dias desse ano e meio que se passou. "o que estou fazendo aqui?". é certo que pergunta parecida me acompanha desde o dia do meu primeiro pensamento formulado, "o que estou fazendo aqui?" nunca me conformei direito com o fato de existir nesse planeta, ele é demasiado desorganizado e estranho, desorganizado no sentido humano, estranho no sentido natural, já que humano e natural são distintos para mim. natural de natureza, daquele mundo organizado independente do humano. é um mundo perfeito, mas estranho, esse equilíbrio da vida sustentado na morte pra mim é muito estranho. quanto ao universo humano não é preciso muito dizer,é o próprio caos realizado. seres de diversas faixas evolutivas viajantes de planetas distintos, aqui se encontram como num porto de uma ilha sem dono, tentando realizar o que viviam em outras dimensões, criando uma torre de Babel estética ética cultural caótica de um individualismo ilógico, e pior de tudo é que não poderia ser diferente. a experiência de Deus nesse planeta é o mesmo que colocar numa ilha deserta e sem comunicação, um representante de cada nação, cultura, tribo. e numa ilha pequena.pois então imagine um índio, um fat americano, indiano, africano, baiano, paulista, amazonense, alemão, esquimó, australiano e todos os etecetares possíveis, e chamemos isso de familia, sociedade. a disposição natural é que cada um tente recriar seu velho mundo, mas para se construir algo é sempre necessário mais que uma mão, mas cada mão parece ocupada demais com seu próprio sonho,e então nascerão com certeza os jogos de poder, a lei do mais forte, e em seguida revolta mágoa, estéticas deformadas e mal feitas, e desorganização e caos. é esse o mundo que vivemos.
acho que me perdi em elocubrações e sai do tema,rs. mas de certa forma não. continuo falando da pergunta "o que estou fazendo aqui", e minha descrição da experiência humana interplanetária, cabe perfeitamente à descrição de uma familia. são vários extraterrestres limitados a um mesmo espaço físico obrigados ao confronto, a readaptação e recriação de linguagem, ética e estética, e em sequencias a criação de jogos de poder.
me refiro sempre a estética como manifestação formal do ser em si e no que o rodeia, pode parecer para alguns irrelevante, mas se falar é a expressão do que se pensa, a estética é a expressão do que se é como ser total, as vezes até em clara contradição do discurso falado. ou seja, a estética ainda é melhor comunicador do que a fala. e estética também é um problema sério que me deparei nessa mudança. não que eu seja organizado, do tipo limpinho, meu caos tem uma lógica particular.

continuo....

domingo, 10 de janeiro de 2010

como vim parar aqui PARTE I

eu ia parar de escrever que estava começando a ficar com tedio, mas apareceu os pernilongos, e depois, quando ia fechar, olhei pra essa foto ai em cima, a capa do meu blog, essa parede suja e essa janelinha com cara de campo de concentração, e me veio a historia dela, essa parede ficava na frente da minha sala, da casa antiga, ano passado, eu morava sozinho, minha primeira casa sozinho depois de anos tentando, e acho que por causa dessa janelinha acabei aqui onde estou, na casa da minha mãe, novamente, meio prisioneiro da responsabilidade e do medo da culpa, e uma certas dose de preguiça.
a foto aqui do lado é da antena dessa minha antiga casa, e meu irmão está em cima dela, o céu lá era imenso, aqui agora tenho pequenas frestas, engraçado assim dizendo tudo parece longe, mas a casa esta aqui ao lado, uma parede me separa dela, e por acaso está vazia. faz um ano que sai dali e vim praqui. voltemos a janelinha...
foi meio esquisito, primeiro tive uma briga com minha mãe e disse pra ela cuidar da vida dela e que eu ia cuidar da minha, cortei relações, na medida do possível, ela chorou muito, me atormentou como pode, depois acalmou, então apareceu uma linda pombinha no meu vaso pendurado na porta da cozinha, ai nessa parede da foto, ao lado desse vidro, ela fez um ninho e parecia tão lindo... rapido ela botou dois ovinhos, nasceram dois pombinhos, tudo lindinho, então comecei a me coçar, e descobri pequenos carrapatinhos, muito lindinhos pela casa, que praticamente me espulsaram, mas fui mais corajoso que eles e consegui extermina-los e enchotei as pombas sem piedade. ela me olhavam a distancia com cara de "como voce é cruel, somos tão fofas..." insistiram um pouco, mas acabaram desistindo de voltar. bem, mal terminada essa pequena batalha, mudou pra casa visinha uma senhora e algumas amigas... montaram um bar reservado, e uma musica insuportavel começou a tocar durante todo o dia, e até a noite, eu trabalho em casa, e preciso de uma concentração meio chata pra entrar nos meus estados paralelos de produção. coisas ridiculas me incomodam, luz, cadeira, roupa, e... sons...
foi crescendo e ficando insuportável, todo o som vinha dessa janelinha ai em cima, que ficava a um metro da minha sala, onde eu trabalhava, ou seja, é como se estivessem dentro da minha casa. então começou o álcool, brigas, e etcs... era surrealista. junto com isso comecei uma serie de amores internéticos muito estranhos, que me traziam todo um passado de amores mal sucedidos, um mergulho no passado tentando colocar no lugar e dar todas as respostas que em outras épocas eu não dei. embriagado pelo alcool que não tomei, participando auditivamente de brigas que não criei, sofrendo por pessoas que não via, não tocava, era esse meu mundo no final do ano passado. um mundo de virtualidades, até meu trabalho, meus contatos eram por fone ou Email e sedex, ou seja eu não via meus clientes , não sabia sua reação ao meu trabalho, e meu único feedback era dinheiro mesmo. pra um artista dinheiro não é suficiente...
continuo depois...